segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Alcoolismo em profissionais de saúde - parte II


NOTA PRÉVIA: Caros participantes, a síntese que vão ler de seguida trata-se de um artigo da revista SÁBADO nº 221, cujo título é: Médicos viciados. Para lerem o artigo completo, pesquisem, "revistas online" no google e solicitem a revista.
1. Não se trata da minha parte de nenhum "ataque" aos médicos, que fique bem claro! Como já referi nada tenho contra os médicos, apenas me incomoda a arrogância e elitismo de alguns. Tenho muito respeito e consideração pela classe médica. Ser médico, não é nada fácil. As recompensas são benéficas, os dissabores podem ser catastróficos.
2. Este é um trabalho de investigação da jornalista Isabel Lacerda, que descobri por conversa com uma amiga e que serve de complemento ao penúltimo post, Alcoolismo em profissionais de saúde.
3. É importante reforçar o "PROFISSIONAIS DE SAÚDE". Na minha opinião o artigo é muito completo, mas será injusto, pois retrata apenas a classe médica, quando a questão abrange todas as classes. Não serão apenas médicos, os profissionais de saúde com este problema. Claro que para efeitos de audiência, vende muito mais, MÉDICOS VICIADOS, do que enfermeiros viciados ou auxiliares viciados, etc. Sendo assim, mais uma vez, que fique claro que acho este artigo pertinente, completo e interessante, mas INJUSTO, não venham por aqui os anónimos azucrinar-me a cabeça.
«A médica era viciada em drogas duras e foi apanhada a roubar. Castigo: aposentação. (...) Atendia vários doentes ao mesmo tempo enquanto os tratava por "tu" e fumava cigarros, (...). Há vários anos que as pessoas da região lhe conheciam a dependência de drogas duras - heroína e cocaína. Muitos doentes recusavam ser atendidos por ela. Mais de 10 registaram as suas queixas no livro de reclamações. Já em 2005 os colegas do posto médico se tinham juntado para exigir que ela fizesse análises ao sangue. Recusou. (...) Há médicos dependentes de drogas pesadas. Mas ainda são mais os que abusam de outras substâncias como álcool e comprimidos, para relaxar ou ganhar energia. A maioria dos estudos comparativos conclui que a propensão para o abuso de substâncias aditivas lícitas (medicamentos) é mesmo superior nos médicos do que nas restantes profissões. Num trabalho sobre stresse e esgotamento na classe médica, Maria Antónia Frasquilho, psiquiatra e investigadora, afirma, baseada em estudos internacionais: constata-se que os médicos recorrem aos tóxicos para aliviarem o sofrimento emocional - 12% a 14% abusam do álcool ou dependem de tóxicos. (...) A dependência química alia-se à dependência de álcool e assume uma dimensão e gravidade superiores às de outras profissões com status sócio-económico equivalente.
(...) os médicos têm altas taxas de stresse, insónia, ansiedade, depressão e suicídio (...). A psiquiatra nomeia as longas horas de trabalho, a frustração com o declínio das condições técnicas e humanas para exercer a medicina e a desilusão (...). Conheço muitos médicos que me dizem: "Só aguentei a Urgência tomando pastilhas, porque a minha vontade era fugir."
Luís Santos (nome fictício), médico de um hospital de Lisboa (...). Começou a tomar comprimidos no fim da faculdade (1975/76): "havia matérias extremamente árduas e um colega desafiou-me a tomar uns estimulantes." (...), um delegado de informação médica abordou-o com uns novos comprimidos que dizia serem óptimos para quando se estava de banco: "Foram os melhores que alguma vez tomei. Acho que era anfetamina ou coisa do género" (...) Ao fim de muitos anos, o médico, (...), reconheceu que tinha um problema de adição a comprimidos e também ao álcool, (...). Procurou um psiquiatra. Mas ainda foi pior. "Ele insistiu que eu estava enganado, que o meu problema era depressão." Receitou-lhe antidepressivos - vários. (...) A dependência durou mais de 20 anos. Sendo médico, Luís tinha acesso fácil à substância em que era viciado: prescrevia-se a si próprio. (...) Ele próprio explica que doses altas de estimulantes podem provocar efeitos com os de doentes bipolares na fase eufórica: "A pessoa perde alguma noção dos limites e do bom senso, acha que é o super-homem. (...) Por sorte, a sua especialidade não é cirúrgica. (...) E diz que nunca foi trabalhar "com os copos". Porque nas alturas em que lhe dava para beber até adormecer, ou faltava no dia seguinte ou faltava durante semanas ou meses - metia baixa.
No Brasil, um estudo da Universidade de São Paulo sobre os hábitos de consumo de médicos em tratamento de toxicodependência ou uso nocivo de substâncias revela que o padrão mais frequente é a associação de álcool e drogas (36,8%), seguido do álcool isolado (34,3%) e das drogas (28,3%). Uma profissional de saúde aposentada conta à SÁBADO como, ao longo da sua carreira, sempre em Lisboa, se cruzou com médicos com os três problemas: " Um especialista em medicina interna, na casa dos 40 anos, assim que chegava ia direito a um armário de medicamentos e tomava um tranquilizante. Dizia que o acalmava a tarde toda." Noutro hospital, um cirurgião com mais de 50 anos que tinha dores provocadas por um traumatismo de guerra, enchia-se de analgésicos, especialmente antes de entrar no bloco operatório. Só que os tomava com whisky. Nos intervalos entre operações engolia mais comprimidos e bebia mais whisky. Chegava a esvaziar uma garrafa por dia. "Que eu saiba, nunca teve nenhum acidente cirúrgico", "E depois havia outro internista, com menos de 40 anos, completamente alcoólico. Chegou a estar duas vezes internado, em coma. Acabou por morrer em deterioração orgânica provocada pelo álcool." (...) Domingos Neto, ex-director do Centro Regional de Alcoologia do sul. O psiquiatra especializado em adições já tratou mais de uma dezena de médicos com problemas de alcoolismo: "Uns estão óptimos, com uma vida profissional excelente. Outros não estão assim tão bem." Um dos problemas do abuso do álcool (...): "É uma espécie de toxicodependência de estimação dos portugueses." Mesmo os médicos têm dificuldade em reconhecer o seu problema. (...), têm maior renitência do que a população em geral em procurar ajuda e são melhores a esconder os sintomas. (...) Mesmo quando percebem que alguma coisa está errada, o alheamento, o corporativismo ou o receio tornam a ajuda e a denúncia raras (nenhum dos profissionais de saúde que relataram situações à SÁBADO falou com superiores ou com os colegas). Muitos poucos processos originados por esses motivos chegam à Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS). E, destes, menos ainda terminam em sanções aos profissionais: as reacções, adianta fonte da IGAS, acabam quase sempre em recomendações de atenção às entidades. Além disso, a SÁBADO sabe que, nos últimos anos, os planos de actividade da Inspecção não tem previsto nenhuma acção de fiscalização a este tipo de situações. O Ministério da Saúde não quis comentar o assunto (...).
Em Lisboa, o hálito de um conhecido cirurgião não engana quem trabalha com ele. O seu comportamento muito menos. "É completamente irascível, anda sempre aos berros, maltrata toda a gente, ameaça os colegas de nunca mais operarem na vida", conta uma enfermeira. Com a perda de precisão, os erros, mesmo em cirurgias simples, apareceram. "Enganava-se e cortava artérias; numa operação a um quisto dermóide atrapalhou-se tanto que deixou a rapariga com uma cicatriz horrível (...). No momento em que percebia os enganos reagia quase sempre da mesma maneira: batia com os pés no chão, atirava com os instrumentos cirúrgicos, gritava: "Sou mesmo um estúpido, sou uma besta!" Há cerca de oito anos, numa cirurgia a uma hérnia, de repente o enfermeiro-instrumentista perguntou: " Mas isso não era o canal espermático?" Pausa. Gritos (do próprio cirurgião a chamar nomes a si próprio por ter cortado no sítio errado). Nova pausa, para se acalmar: "Cale-se! Não fale do que não sabe. Não era nada, está tudo bem." Mas era. Toda a gente que estava no Bloco percebeu que era. Só que ninguém disse nada. O rapaz de 20 e poucos anos nunca soube do erro que pôde eventualmente ter-lhe atrofiado um testículo. Formalmente, nunca nenhum colega fez queixa dos abusos do cirurgião, mas a SÁBADO sabe que foram várias as recomendações informais que chegaram à direcção de pelo menos um dos hospitais por onde passou para que ele fosse afastado dos blocos operatórios. Nunca nada foi feito. O médico continua com os seus excessos, verbais e de consumo, embora ultimamente se tenha dedicado mais a funções administrativas. "Pode haver tendência para proteger o colega, mas isso faz-lhe mal. Uma atitude firme da parte do superior ("Ou te tratas ou vais ter problemas connosco") é muito mais humana e benéfica do que a tolerância", sublinha o psiquiatra Domingos Neto. Até porque, se quase nenhum alcoólico procura ajuda sem pressão dos familiares, amigos ou colegas, nos médicos - está provado - os tratamentos têm taxas de sucesso superiores. Sobretudo se, como acontece nalguns países, a sua recuperação (de álcool e/ou drogas) for feita em centros de tratamento especializado só para profissionais clínicos. Nos Estados Unidos há pelo menos 40 instituições destas. Em Portugal a tentativa que houve em 2001, em Coimbra, acabou em menos de um ano: "Ainda atendemos cerca de 12 médicos, a maioria com problemas de álcool. Aquilo funcionava na base da boa vontade, por iniciativa da Ordem dos Médicos, mas necessitava de condições logísticas e financeiras para continuar", explica o psiquiatra mentor da iniciativa, Morgado Pereira.
O elevado estatuto social da classe médica e a própria natureza da profissão faz com que os próprios tenham renitência em recorrer aos serviços de saúde públicos, onde estão mais expostos e podem, inclusive, cruzar-se ou ficar internados ao lado de pacientes. A secção regional do sul da Ordem está a acompanhar o Programa de Atenção Integral ao médico Enfermo, de Barcelona (...): "Permite um internamento incógnito - a pessoa vai com um nome de código".
Em Portugal, os profissionais de saúde representam 3,2% dos Alcoólicos Anónimos (AA). (...) Carlos Ferreira (nome fictício) foi um deles. Começou a beber ainda durante o curso e só parou 20 anos mais tarde (...) o álcool estragou-lhe a carreira de gastroenterologista no IPO de Lisboa. Mas proporcionou-lhe outra: " Quando entrei nos AA comecei a ler tudo que havia sobre adições em Portugal. Depois fui para o Canadá estudar medicina de adição. Quando regressei tornei-me também psicoterapeuta." Há 15 anos que trata pessoas com os mesmos problemas pelos quais já passou. Deixa um recado: "Os médicos têm de perceber e aceitar que o alcoolismo é uma doença crónica como a hipertensão, a doença cardiovascular ou pulmonar (...) não se pode deixar que estejam a exercer - para o bem delas e para o bem dos doentes, porque esses é que não têm culpa nenhuma.
(...) O marido de Zélia Ferreira foi atendido por um médico visivelmente alcoolizado. Morreu poucas horas depois: "Tinha os botões da bata desencontrados e os sapatos a chinelar. Até pensei - raio de médico, parece que está a dormir" (...) Morreu a caminho do segundo hospital. Deixou duas filhas e uma viúva inconformada: Zélia Ferreira escreveu uma queixa no livro amarelo do hospital e iniciou um processo em tribunal contra o médico. A reclamação originou um inquérito na IGAS, que terminou com a mera recomendação para que as sub-regiões de saúde instaurem formas de monitorizar e prevenir este tipo de situações. O processo judicial não passou da instrução, em 2007. (...) De nada valeram as 11 testemunhas apresentadas pela viúva, todas a referir o habitual estado de embriaguez do clínico geral.
Paulo Agostinho (...) levou a filha de 8 anos, engripada e febril ao mesmo hospital (...) À saída perguntou na secretaria se era permitido ouvir música na urgência, (...) "Nisto aparece o médico a dizer que o rádio tinha desaparecido, como se eu o tivesse roubado." Levantou-se a confusão e Paulo chamou a PSP - insistia em ser revistado para desfazer as dúvidas. Mas quando a polícia chegou, o pedido das dezenas de utentes que lá estavam foi outro: "Ponham-no (o médico) a soprar ao balão!". A polícia não chegou a testar a alcoolemia, mas umas semanas depois Paulo Agostinho recebeu um telefonema do director do hospital e mais tarde alguém lhe disse que o médico tinha sido retirado das urgências nocturnas. Esse médico tem hoje 60 anos. Continua a exercer».
A minha opinião:
1. Por que é que as entidades competentes se escondem atrás do problema, por que é que não encontram soluções? "O Ministério não comenta? Porquê?
2. Todos sabemos que há médicos que têm pavor, detestam a Urgência, fazem-na por obrigação, daí vem os comprimidos para relaxar. Não há formas de se dedicarem àquilo que gostam e deixar a urgência para outros, aqueles que gostam (criar "urgencistas", p.e.).
3. A causa do problema também está no próprio SNS, alguns motivos que foram apontados no artigo são da exclusiva responsabilidade do SNS. Questões organizativas, condições de trabalho, melhoria infra-estruturas, aumento das equipas, ......
4. Médicos que se auto-prescrevem, como é possível?!
Obrigado Patrícia, este post não existiria sem a tua preciosa ajuda.
G.

5 comentários:

  1. Um minuto de silêncio........
    em memória de um Grande Enfermeiro no seu tempo, um Enfermeiro do SU e da emergência pré-hospitalar, um amigo sempre pronto a ajudar os outros,hoje seria um mestre que daria cartas em Urgência /Emergência.
    Oriundo de Paredes de Coura e muito conhecido neste concelho de Viana do Castelo, o TONI...
    vitimado por uma pancreatite necro hemorrágica...provocada com toda a certeza pelo maldito do ALCOOL.
    Para quem te conheceu e trabalhou contigo: DESCANSA EM PAZ GRANDE AMIGO

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  2. Se calhar nao é no post certo, mas tenho que dizer isto.
    Estou muuuuiiiiiito contente, mas é que mesmo muito.
    Fnalmente o numero de enfermeiros no SU , vai aumentar á noite.
    Ha anos que eu luto por isto, sim leram bem, anos. É verdade que nao era o unico. O que nós lutamos...
    Em boa verdade vos digo.....que ja pensava que isso nao acontecia.
    Devo entao agradecer a nossa directora pelo facto de ter avaliado um dos problemas do serviço , em tao pouco tempo.
    A verdade é que esse problema ja estava identificado, só que outros nao o queriam ver.
    Mas isso agora nao interessa nada.
    O que importa é o futuro. E para já o futuro adivinha-se risonho. Vamos ver se se mantem assim.
    É no entanto de salientar que a nossa enfermeira directora, nao provem do ambiente hospitalar, mas sim dos centros de saude. O que ainda lhe dá ainda mais valor.
    Se calhar o facto de termos tido enfermeiros de carreira hospitalar nao nos beneficiou.

    Dou-lhe desde já os meus parabens, nao a conheço mas faço tensao de a conhecer, para a felicitar.

    Quando as chefias fazem algo bem tambem é preciso dizer.

    Parabens

    PS. glosa o Filipe sou mesmo eu, e o CSI é mesmo o CSI.

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  3. Caro anónimo, bonito gesto. Não tive o prazer de conhecer o Enfº Toni, mas várias vezes ouvi falar nele, e não por maus motivos. Um enfermeiro merece sempre qualquer homenagem, quem neste vida se dedica a ajudar os outros merece ser relembrado.

    Filipe, tas a dar-me uma novidade, devo andar a dormir... :)) Bom, também tenho estado pelo hospital e não ouvi nada. Vamos lá ver... se isso se concretizar é de facto a 1ª grande vitória da directora, entrou com o pé direito, desde já as minhas felicitações, que continue o bom trabalho. Tens toda a razão, quando algo é bem feito deve-se salientar. Não é só mandar postas de pescada
    Abraço
    G.

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  4. Infelizmente é verdade...
    Não conhecesse eu um...tão jovem e já nessa vida.
    Ele é noites sem dormir, directas em cima de directas, bancos de 24h precedidos de directas e vai de tramadol, haldol, etc. para cima e outras coisas que me ocultou.
    E quem sofre as possíveis consequências, sem ter culpa, são as pessoas.

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  5. Pois apetece-me dizer que um dia destes consultei um médico assustada e um pouco apavorada, precisava urgente de um otorrino para a minha filha e aquele era o mais rápido,mas... tinha fama de alcoolico!!!
    Nunca o vi alcolizado e atendeu muito bem e reencminhou -me muito bem para outro profissional pois já não operava. Por nem tudo que dizem é verdade... Obrigado Drº Pinheiro....

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